Remédio para cólica de bebê: o que a ciência diz e o que realmente ajuda
Quando o bebê chora sem parar, é natural buscar um remédio mágico. Entenda o que funciona, o que é mito e como aliviar a cólica com segurança.

Quando são 2h da manhã, seu bebê está chorando há horas com o rostinho vermelho e as pernas encolhidas, e você já tentou de tudo, o pensamento é quase automático: "preciso de um remédio para acabar com isso agora". Isso é compreensível. A exaustão e o desespero de ver o próprio filho desconfortável fazem qualquer pai ou mãe buscar a gota mágica que traga paz.
A boa notícia — e talvez a mais frustrante no começo — é que a cólica não é uma doença que precisa ser curada com medicamentos. Na maioria das vezes, ela é uma fase de adaptação do bebê ao mundo fora do útero. A parte difícil é que, justamente por não ser uma doença, a resposta da ciência sobre "qual o melhor remédio" não é aquela que os pais gostariam de ouvir.
Resumo rápido:
- Não existe gota mágica: Medicamentos tradicionais contra gases costumam ter o mesmo efeito que nada (placebo), segundo a Academia Americana de Pediatria (AAP).
- A fase passa: A cólica atinge o pico por volta de 6 semanas e melhora quase que totalmente entre 3 e 4 meses de vida.
- O melhor "remédio" é conforto: Técnicas de acolhimento (movimento, som branco, contato pele a pele) têm mais respaldo científico para acalmar o choro do que a maioria das medicações.
- Antes de medicar, investigue: Sempre converse com o pediatra. Choro excessivo pode ser fome, cansaço ou, em casos mais raros, algo que exija avaliação médica.
Por que a ciência diz que não há um remédio exato?
Para entender por que é tão difícil encontrar um remédio para a cólica do recém-nascido, é preciso entender o que ela é. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a AAP concordam que a cólica do lactente é um padrão de choro intenso, prolongado e sem causa médica aparente, que acontece em um bebê saudável e bem alimentado.
Como a causa exata ainda é um mistério — pode ser imaturidade do intestino, excesso de estímulos do ambiente ou apenas uma fase do desenvolvimento neurológico —, não existe um alvo único para o remédio atacar.
A simeticona realmente funciona?
Se você pesquisar sobre o assunto, a primeira indicação de amigos e familiares provavelmente será um remédio de farmácia à base de simeticona (conhecida por quebrar bolhas de ar no estômago).
A resposta mais honesta é: a ciência diz que não faz diferença, mas muitos pais juram que ajuda.
De acordo com a AAP, vários estudos já testaram a simeticona e descobriram que ela não é mais eficaz do que um placebo para reduzir os sintomas da cólica. O que costuma acontecer é que, ao dar o remédio, o gosto doce acalma o bebê momentaneamente, ou o próprio fato de pingar as gotas no canto da boca faz o bebê engolir e mudar o padrão de choro. Além disso, a cólica costuma passar naturalmente com o tempo, e o remédio acaba levando o crédito da melhora natural.
A simeticona é considerada segura, mas não é a solução definitiva. Nunca inicie o uso sem que o pediatra do seu filho tenha avaliado o quadro e recomendado a dose certa.
Probióticos e outros tratamentos
Nos últimos anos, a conversa sobre cólica mudou muito do estômago para a flora intestinal.
- Probióticos: Algumas pesquisas apontam que probióticos específicos (como o Lactobacillus reuteri) podem ajudar a reduzir o tempo de choro, especialmente em bebês que mamam exclusivamente no peito. No entanto, as evidências para bebês que tomam fórmula ainda não são tão fortes. Novamente, não é algo para comprar na farmácia por conta própria — o pediatra precisa indicar a cepa correta e a dosagem.
- Fórmulas especiais: Se o bebê toma fórmula infantil, não troque a marca por conta própria achando que a culpa é do leite. Se o pediatra suspeitar de intolerância ou alergia (como a alergia à proteína do leite de vaca), ele guiará a troca para uma fórmula específica.
- Chás e remédios naturais: Nunca ofereça chás (como camomila ou erva-doce) para bebês menores de 6 meses. O estômago deles é pequeno, e a água do chá pode tirar o espaço do leite, que é o que realmente nutre. Além disso, algumas ervas podem ser perigosas para recém-nascidos.
O que fazer em casa: os "remédios" que realmente funcionam
Se o remédio de farmácia não é a solução mágica, o que fazer na hora do desespero? O objetivo não é "curar" a cólica, mas sim ajudar o bebê a atravessar a crise com menos sofrimento.
- Reproduza o útero: O mundo do lado de fora é frio, claro e silencioso demais. Faça um embrulho seguro (cueiro), deixando os quadris soltos, para que o bebê se sinta contido.
- Contato pele a pele e movimento: Segure o bebê deitado de bruços no seu antebraço (a clássica posição da cólica) e caminhe pela casa ou balance suavemente.
- Som constante (som branco): O útero era um lugar barulhento. Ligar um aplicativo de som branco, o som do chuveiro ou até o aspirador de pó em outro cômodo pode acionar o reflexo de calma do bebê.
- Dê uma pausa para você: Bebês sentem a tensão dos adultos. Se você está no limite de chorar junto, coloque o bebê no berço (um lugar seguro), saia do quarto, respire fundo por 5 minutos ou passe o bebê para outro cuidador. Cólica não é culpa dos pais, e não conseguir acalmar o bebê na hora não faz de você um pai ruim.
Quando procurar o pediatra
A cólica clássica não traz risco para a saúde do bebê. Mas é fundamental ter certeza de que o choro é apenas cólica. Procure o atendimento pediátrico no mesmo dia se notar:
- Febre (38°C ou mais em bebês menores de 3 meses exige contato imediato, mesmo que ele pareça bem)
- Recusa alimentar forte (não quer mamar ou tomar a fórmula de jeito nenhum)
- Vômitos frequentes ou com coloração verde
- Choro que não tem nenhum momento de alívio ao longo do dia todo
- Se o choro excessivo começar de repente num bebê que era super calmo
Perguntas Comuns
Qualquer bebê pode ter cólica? Sim. A cólica afeta tanto bebês amamentados no peito quanto bebês que tomam fórmula infantil, em proporções semelhantes. Acontece em meninos e meninas igualmente.
Remédio para gases serve para cólica? A ciência diz que medicamentos contra gases (como simeticona) não têm eficácia comprovada no tratamento da cólica do recém-nascido, agindo praticamente como um placebo.
O que a mãe come causa cólica no bebê? Na maioria das vezes, não. A ideia de que feijão ou repolho no prato da mãe dão gases no bebê não tem comprovação sólida para a maioria das famílias. Apenas em casos específicos (como alergia à proteína do leite de vaca) o pediatra pode orientar uma dieta restritiva para a mãe que amamenta.
Fontes
- SBP — Cólica do lactente: https://www.sbp.com.br/especiais/pediatria-para-familias/
- AAP / HealthyChildren — Colic Relief Tips for Parents: https://www.healthychildren.org/English/ages-stages/baby/crying-colic/Pages/Colic.aspx